segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

"CANGALHA DO VENTO" E AS MEMÓRIAS QUE O TEMPO NÃO APAGA

Publicado por Roberto Leal As segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021  | Sem Comentarios


Carlos Souza Yeshua* 


O Brasil, até o ano de 1950, era um país

5ª Edição para Africa portuguesa
majoritariamente rural. Ou seja: a maior parte de sua população vivia no campo. O processo de industrialização, entretanto, iniciado a partir dos anos de 1930, provocou um êxodo rural sem precedente e é nesse contexto histórico que se passa Cangalha do Vento. Consequentemente, na década de 1970, mais da metade dos brasileiros passou a viver nas áreas urbanas em virtude das constantes buscas por melhores condições de vida: ofertas de em
prego, de educação, de saúde e a possibilidade de ascensão social. Atualmente,
segundo dados do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 80% da população vive na zona urbana.

Mesmo com a mudança do campo para cidade, a maioria dos brasileiros tem uma memória afetiva relacionada à Terra em que nasceram seus pais, avôs ou bisavôs, locais que muitos costumavam passar as férias. É nesse ambiente de relações históricas e familiares que se ambienta Cangalha do Vento, do escritor Luiz Eudes, obra que está na quinta edição e agora publicada pela Editora Òmnira, para o continente africano, especialmente Angola e os demais países do PALOP – Países de Língua Oficial Portuguesa.

Os contos da obra revelam as aventuras de Aristeu, como o seu casamento com a prima Tereza, o qual gerou descendentes que têm algo em comum: o amor pela Terra onde seus pais nasceram e fixaram residência. A ligação com esse pedaço de chão, chamado Junco, cravado no sertão da Bahia, onde se fincaram suas mais profundas memórias, é o fio condutor de toda narrativa ficcional, uma história capaz de levar o leitor a pensar na própria saga familiar.

A vida do patriarca Aristeu nunca foi fácil, no entanto, não faltou a ele coragem para desbravar o desconhecido. Motivado pela expectativa de transformar sua vida, ele se aventurou pela Floresta Amazônica e sua cultura da extração de látex, além de ter conhecido a dura labuta dos tropeiros ao trabalhar com transporte de cacau das fazendas até o porto, em Ilhéus, antes de voltar para sua Terra e se dedicar a cuidar da família, composta por uma dezena de filhos.

  José Paulo é quem dá continuidade à história da família, de modo que, assim como o pai, se aventura pelo Brasil em busca de oportunidade de emprego. Conta, inclusive, os motivos que o fizeram viajar para São Paulo, uma prática comum ocorrida no Brasil durante o século XX, caracterizada como retirada dos nordestinos em razão da seca, pois viam no polo financeiro do País a possibilidade de não faltar o “pão de cada dia”. Em certo momento da vida, Paulo ouviu seu coração e fez o caminho de volta, pois desejava se reestabelecer nas Terras em que seu bisavô, Paulo Vieira de Andrade, chegara há cem anos, aproximadamente.

Outros filhos de Aristeu também têm suas histórias narradas, como o boêmio, sindicalista e político Israel. E seu irmão Juvêncio, que se tornou proprietário da Fazenda Baixa Funda, moradia que pertenceu ao pai, local onde os irmãos foram criados e os seus filhos, por sua vez, também. Fernando, filho de José Paulo, mantém a paixão dos “Aristeus” pelo Junco; é nessa Terra que também escolhe construir sua família e preservar a memória dos seus antepassados.

A novela, assim, tem dois personagens centrais, que percorrem toda história: o Junco e a família de Aristeu. São eles que conduzem o leitor por um Brasil cheio de idiossincrasias, lutas e resistências. Por exemplo, a resistência do sertanejo que peleja contra a seca e o sistema político perverso, que se alimenta da miséria do povo sem mover uma palha de forma republicana para acabar com o sofrimento de brasileiros cujo sonho é viver dignamente. O Junco, a migração para São Paulo e a escassez de chuva (a qual resulta no sofrimento do Sertão) lembram o famoso livro “Essa Terra”, do escritor Antônio Torres, e outro livro também ambientando no mágico Nordeste brasileiro: “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos.   

Em resumo, Cangalha do Vento é um livro tocante, pois transporta o leitor para as lembranças das fazendas de seus avós e dos pequenos povoados e cidades localizadas distantes das grandes metrópoles, nos quais a vida passa de forma diferente. Mesmo quem não viveu a referida experiência se conecta com sua ancestralidade, porque os ancestrais viveram e lutaram para que seus descendentes pudessem estar onde hoje estão.

Dentre tantas frases marcantes encontradas no livro, destaco a do amigo de Fernando que, ao consultá-lo sobre uma poesia que escrevera como homenagem à sua amada Terra, o Junco, disse: “Que coisa mais poética é o interior!” Por fim, digo que a leitura de Cangalha do Vento é altamente recomendável. Afinal, a obra conta um pouco da história de cada um de nós, de forma que promove reflexões acerca da nossa própria existência.                                                                                            

*É jornalista e escritor. Presidente da UBESC – União Baiana de Escritores. É autor dos livros:  João Alfredo Domingues – pau pra toda obra: a saga de um português em terras angolanas e brasileiras; Revolução pessoal – seu próximo desafio. É organizador das antologias: Carta ao Presidente – brasileiros em busca da cidadania (2012) e Carta ao Presidente – o que deseja o brasileiro no século XXI (2010). Organizador do Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia – Ed. CEPA/2015.

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