quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O homem que inventou a Bicicloteca

Publicado por Roberto Leal As quinta-feira, 27 de dezembro de 2012  | Sem Comentarios

 
Bicicloteca em frente ao Teatro Municipal de São Paulo
O pecuarista Robson Cézar Correia de Mendonça morava em Alegrete, interior do Rio Grande do Sul, ao lado de sua mulher e seu casal de filhos. Em busca de uma vida melhor, vendeu tudo que tinha, arrumou as malas, pegou todas as economias e viajou para São Paulo na esperança de uma vida melhor e ao chegar sofreu um duro golpe do destino: foi assaltado, perdendo tudo, dinheiro, documentos e bagagem, mas não perdendo a dignidade, sem opção, tornou-se um morador de rua.

Após um ano sobrevivendo nessas condições, soube através de notícias, Foi em uma vitrine que Robson César se deparou com a maior dor de sua vida. Vagando pelas ruas de São Paulo, deteve-se por um momento em frente a uma loja para assistir na TV ao noticiário que falava de um acidente, na estrada para Juazeiro do Norte (CE). Uma família gaúcha dizimada. A sua. Ao tentar se informar melhor sobre esse fato ocorrido com seus familiares, em busca de um apoio de parlamentares para entrar em contato com a cidade onde havia deixado à família esperando, procurou a Câmara Municipal, mas foi barrado pelos seguranças por ser um morador de rua, sendo ali naquele momento julgado pelas suas condições de vida, ali foi humilhado.

Como também era impedido de retirar livros pelo sistema de empréstimos das bibliotecas públicas, colocou em prática e deu início ao seu Projeto Bicicloteca, uma iniciativa que visa dar acesso à cultura, levando a leitura aos moradores de rua da cidade de São Paulo. Nesse dia, sua trajetória se cruzou com a do empreendedor Lincoln Paiva, dono de uma consultoria voltada para projetos de mobilidade urbana, a Green Mobility. Paiva enxergou naquela iniciativa de Robson César uma possibilidade de "contaminar" outros moradores de rua com a literatura, e era uma clara possibilidade de desenvolver uma ação social.

Robson comentou com Paiva que, se pudesse, levaria livros pelas ruas para que as pessoas com acesso restrito a eles também pudessem descobrir novas motivações através das páginas - e sem sofrer preconceito. "Na biblioteca Mário de Andrade, as pessoas mudavam de mesa quando eu me sentava", recorda.

Se pudesse, disse a Paiva, carregaria os volumes em um carrinho de mão e os distribuiria para os habitantes das ruas. Paiva, um voraz fabricante de ideias, por muitos anos, foi um conceituado profissional do mercado publicitário, concluiu que a mensagem estava naquela ação, mas o meio de transporte, no caso poderia ser aprimorado. E foi assim que nasceu o Projeto da Bicicloteca.

A partir do conceito de biblioteca itinerante, foi desenhado e construído um triciclo com um baú acoplado, com capacidade para 300 volumes. O objetivo era emprestá-los a qualquer pessoa e não só a quem vivesse nas ruas, pessoas que se interessasse em lê-los, sem burocracia e sem que precisassem ter a obrigação de devolvê-los.

Robson conduziria o veículo do projeto. Depois de circular por três meses, a primeira bicicloteca foi roubada por um viciado em crack. Robson vivia assim outra grande dor, mas, dessa vez, havia muito que fazer. Ele passou uma noite em claro na busca de pistas que o levassem ao paradeiro do triciclo. A investigação foi parar nas redes sociais; um vídeo da saga, produzido por Paiva, foi visto por mais de 100 mil pessoas na internet. A mídia se interessou pelo tema, que foi assunto até na BBC e no jornal francês Le Monde. Em vários sites, blogs e páginas no facebook.

A bicicloteca foi recuperada. O projeto atraiu empresas que financiaram um modelo elétrico, com acesso à internet e placa solar. No último ano, foram emprestados 107 mil livros, 60% deles para pessoas em situação de rua, 20% para estudantes e 20% para a população em geral. Em um final de semana de cada mês, é organizado um passeio gratuito por pontos do centro de São Paulo que representam episódios significativos da história literária brasileira. Integram o itinerário, por exemplo, o local em que nasceu Álvares de Azevedo, a biblioteca onde Euclides da Cunha fez a primeira leitura de "Os Sertões" e um prédio em que morou Monteiro Lobato.

Concorre ao Prêmio Empreendedor Social
Há quatro anos Robson mora em uma pensão. Luta por sua causa e contra um câncer que levou boa parte de um de seus pulmões. Seu trabalho de disseminar a cultura é patrocinado por um escritório de advocacia. E, não por acaso, diz que hoje é chamado pela polícia de "advogado dos mendigos".

"Eu procurei estudar e aprendi muitas leis, a lei do morador de rua, seus direitos constitucionais. Isso me ajudou a entender o ser humano que está na rua, tanto que, quando prendi o cara que me roubou à primeira bicicloteca, disse ao delegado que não o mandasse para um presídio, mas que o internasse para tratamento contra o vício em droga”.  Em 2000, criou, com alguns companheiros, o Movimento de Pessoas em Situação de Rua, para defender os interesses dessa população. "Brigar" na Assembleia Legislativa e no Ministério Público fazia parte de suas atribuições. Nessa época, sustentava-se com a venda de materiais reciclados. Em defesa da ideia de que morador de rua não é bicho, Robson fez sua própria revolução uma espécie de vitrine para que outras vidas enxerguem novas chances de dizimar suas dores.

O livro "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, que encontrou em uma minibiblioteca de um albergue no Brás, foi o que mais lhe chamou atenção. O título da obra fez-lhe refletir. "Comecei a pensar que, se os animais são capazes de mudar suas vidas, por que nós, que somos animais racionais, não podemos mudar? Disse resumindo a Saga!".

Roberto Leal
Jornalista
Fotos: Divulgação

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