sexta-feira, 28 de setembro de 2018

APOSENTADA ENSINA PORTUGUÊS A IMIGRANTES E É ADOTADA POR ELES

Publicado por Roberto Leal As sexta-feira, 28 de setembro de 2018  | Sem Comentarios

Imigrantes em sala de aula na Arsenal da Esperança em SP

 A professora Sonia Altomar, 72 é chamada assim pelos seus ex-alunos africanos “Minha mãe brasileira”; “minha mãe branca”; “minha segunda mãe”. Todos têm uma história para contar de algum momento em que a ajuda dela influenciou mudanças em suas vidas — seja indicando-os para um curso ou vaga de emprego, ou visitando-os quando estão doentes, com dificuldades, ela sempre levando uma palavra encorajadora, qualquer que seja o apuro, qualquer que seja o momento difícil, por exemplo.

Há seis anos, a professora Sonia dá aulas de português voluntariamente para imigrantes que são acolhidos, na casa de acolhida Arsenal da Esperança, que fica no bairro da Mooca, na Zona Leste de São Paulo. Na ocasião a aposentada liderava um projeto de alfabetização para brasileiros em situação de rua, quando começaram a chegar os haitianos em grande número ao local. Formada em português e francês, era solicitada pelas assistentes sociais para ajudar a traduzir as entrevistas com os recém-chegados. “Fiquei extremamente comovida com a situação deles. Era urgente que aprendessem português, porque só assim conseguiriam se inserir na sociedade, trabalhar, entender a nossa cultura”, disse ela. “Arrumamos uma sala e aí não parei mais”, concluiu.

Professora Sonia e seus alunos africanos
O que chama a atenção na história da professora Sonia é que o acompanhamento que ela dá aos imigrantes vai muito além da sala de aula. “qualquer problema que acontece, se uma pessoa está doente, por exemplo, ela é a primeira pessoa que comparece e dá apoio, ela sempre vai as nossas festas, nos visita em casa” disse Adama Kanote, 36, do Mali. No Brasil desde 2012, Adama tornou-se líder de associação de imigrantes em São Paulo e desenvolve trabalhos com a prefeitura. Ele diz que se inspirou na atuação da professora. “Aprendi muitas coisas com o trabalho dela ajudando os outros. Qualquer montanha que eu subir, o início foi na mão da professora Sonia. Minha mãe está na África, mas ela é a minha mãe aqui no Brasil”, afirmou.

Natural de Burkina Faso, Abdoulaye Guibila, 28, trabalhava pesado na construção quando foi indicado pela professora para ser bolsista em um curso de gastronomia. Precisou ser encorajado, pois estava inseguro em relação ao seu domínio do português e à sua capacidade de aprender a cozinhar. Acabou se destacando e foi homenageado pela turma no final. Quando conseguiu emprego como garçom em um restaurante de um bairro nobre, Sonia foi a primeira pessoa que ele convidou para comer lá. “Ela sempre acompanha nossos passos. Minha mãe, que está na África, me escreve todos os dias querendo saber se estou bem. É exatamente o que a Sonia faz comigo aqui”, diz ele, que costuma visitar a professora e o marido nos finais de semana.

Achile Kaza, 37, do Togo, é outro que também trabalha em um restaurante e convidou a professora Sonia e outras duas voluntárias que dão aulas no Arsenal da Esperança, Beatriz e Sheila, para visitá-lo. “As professoras têm um coração muito bom e se preocupam com a gente,” disse. Um episódio em especial o marcou. Em 2015, quando ele chegou ao Brasil, as professoras o ajudaram a enviar presentes no aniversário de sua filha, que ficou no Togo. “Elas compraram um monte de coisas e me levaram até o correio. Esse tipo de coisa um ser humano não esquece,” confessa emocionado.

Outra situação marcante, desta vez para a professora Sonia, foi quando um aluno do Togo ficou internado em estado grave na UTI. Após perceber que ele estava faltando às aulas, as professoras souberam que ele estava doente. "Pensamos: ‘um menino negro, que não fala português, vai morrer lá se ficar sozinho’, conta ela. “Passamos a visitá-lo todos os dias”. Os médicos perguntaram: ‘onde está a família desse menino? ’ Respondemos: ‘a família somos nós’”. O quadro clinico dele chegou a ser considerado irreversível, mas o togolês se recuperou. Um dos recursos usados pelas professoras para animá-lo era gravar mensagens de sua família e colocar os áudios para que ele escutasse. “Isso ajudou muito. Ele ouvia e dava um sorriso”, relembra a professora.

O ‘Arsenal da Esperança’ fica nas instalações da antiga Hospedaria de Imigrantes, que acolheu 2,5 milhões de estrangeiros vindos da Itália e de outros países nos séculos 19 e 20. Atualmente, oferece cama, banho, alimentação, acompanhamento de saúde e cursos profissionalizantes para 1.200 homens, a maioria em situação de rua.  Quando começaram a chegar imigrantes em maior número, surgiu a necessidade das aulas de português. “Uma pessoa que chega a um país que não é o dela está com as raízes soltas. Uma das coisas que te torna muito desamparado é o fato de não poder se comunicar”, diz Simone Bernardi, missionário do Arsenal da Esperança.

Desde 2012, Sonia e as outras professoras já ensinaram português a mais de 350 estrangeiros. Elas também levam ex-alunos para conversarem com crianças em escolas sobre migração e a cultura de seus países. Segundo Bernardi, a aposentada é uma pessoa “honesta, disponível e com compaixão pelo outro”. “Ela tem paixão por aquilo que ela faz e se tornou uma mãe para tantos que não têm uma pessoa de referência no Brasil”, afirma.

O contato extraclasse de Sonia com os imigrantes começou quando um haitiano chamou-a para conhecer a mulher, que acabara de chegar ao Brasil. Depois disso, outros ex-alunos passaram a convidá-la para visitas quando conseguiam um trabalho ou quando nascia um bebê, por exemplo! Um médico congolês chegou a batizar a sua filha recém-nascida com o nome e até o sobrenome da professora, como uma forma de homenageá-la. A professora diz que considera essa proximidade “primordial”: “Eles estão num país estranho, sem amigos. Para se sentirem realmente acolhidos, eu tinha que participar da vida deles e eles da minha”, enfatizou.

O marido da professora Sonia a apoia e acompanha em algumas visitas. O casal tem um filho que mora na Alemanha. “Eu poderia estar viajando, meu filho sempre me cobra ir mais lá. Mas isso aqui é a minha vida. É algo que me realiza plenamente”, diz a professora aposentada. Em uma das conversas com a reportagem (da Folha), ela termina contando qual é o programa do sábado seguinte. “Vamos com dois meninos que já falam português percorrer supermercados para ver se eles encontram algum emprego, porque não têm dinheiro para a condução e precisam urgentemente trabalhar”. O fato de as professoras irem junto e darem sua chancela ao possível empregador faz a diferença. “Estamos respondendo por eles. E nunca tivemos nenhum problema com quem indicamos. Todos são extremamente responsáveis”, afirma. Cheia de compromissos, a professora Sonia diz que está “com a bateria a toda”. “A cabeça está ótima", garante. "Só vou parar quando o físico não responder mais,”
finaliza. 

Fonte: Folha & Revista Òmnira
Fotos: Karime Xavier/Folhapress


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